Reportagem: Fabiane Humildes e Mateus Soares / Secom PMS
Sair da Ilha de Maré para estudar em Salvador é uma realidade que envolve desafios para jovens de comunidades quilombolas. Além da distância da família, os estudantes precisam lidar com os custos de transporte, alimentação e moradia para frequentar a universidade. Para ajudar a superar essas dificuldades, a Prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria Municipal da Reparação (Semur), mantém as Casas dos Estudantes Quilombolas, que oferecem acolhimento gratuito e estrutura para os universitários darem continuidade à formação acadêmica.
A iniciativa faz parte do Programa de Ações Afirmativas para a Comunidade Quilombola em Salvador. As residências contam com quartos, cozinhas, salas de estudo e espaços de convivência.
Uma das beneficiadas é Geisiane Silva da Cruz, de 21 anos, estudante do sexto semestre do Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Natural da comunidade de Bananeiras, na Ilha de Maré, ela mora há três anos na residência e pretende seguir para o curso de Psicologia. Apesar da saudade da família, que chega a passar quase um mês sem ver, a universitária destaca a importância do acolhimento.
“Eu me sinto privilegiada de certa forma, por ser perto da faculdade. Não precisa pagar ônibus; tem o Buzufba também, que dá acesso para Ondina, São Lázaro, os campi, enfim. É muito bom não precisar ter esses custos que a gente teria a mais por estar lá na ilha”, conta Geisiane.
A convivência com os demais moradores também faz parte da experiência. Segundo Geisiane, os estudantes dividem responsabilidades e procuram resolver coletivamente as questões do cotidiano. “Eu considero a vivência tranquila. Como todo ser humano, tem sempre alguma coisinha para resolver, mas eu considero a vivência na casa tranquila. Tudo que tem para resolver, a maioria resolve”, afirma a universitária.
Também de Bananeiras, Mirella Conceição da Silva, de 20 anos, cursa o sexto semestre de Letras na Ufba e mora na Casa Quilombola desde o início da graduação. Diferentemente de Geisiane, ela costuma retornar à Ilha de Maré todos os finais de semana. O trajeto, no entanto, pode levar de três a quatro horas.
“Não é todo mundo que tem essa oportunidade. Se eu não tivesse a possibilidade de estar aqui na casa, provavelmente não estaria aqui, porque o custo é muito grande. Acho que não teria condições de ficar pagando passagem todos os dias para vir à faculdade”, relata Mirella.
A estudante Angélica dos Santos Simões, de 35 anos, conhece as dificuldades de morar longe da universidade. Natural da comunidade de Maracanã, na Ilha de Maré, ela cursa o sétimo semestre de Letras, com licenciatura em Espanhol, e vive na residência desde a inauguração do espaço. Antes, precisava pagar aluguel e enfrentar um deslocamento mais longo para assistir às aulas.
Com tem baixa visão, Angélica lembra que dependia da ajuda de colegas para chegar à universidade. Quando morava na região da Bonocô, precisava utilizar metrô e ônibus, o que a fez pensar em abandonar o curso. “Realmente pensei muitas vezes em desistir por conta disso. Por não ter uma estrutura, alguém para auxiliar e morar tão distante. Agora que moro perto, creio que vou concluir o curso e vai dar tudo certo”, diz Angélica.
Outro estudante atendido pela iniciativa é Juan Nascimento Pedro, de 27 anos, também da comunidade de Maracanã. Aluno do sétimo semestre de Ciências Contábeis, chegou a morar de aluguel na Federação e passou por outra residência universitária antes de se mudar para a atual casa.
Como estuda à noite, ele enfrentava dificuldades para retornar depois das aulas. Em alguns períodos, precisava permanecer durante praticamente todo o dia na universidade para conseguir se alimentar e estudar. “Era bem difícil, porque eu estudava à noite. Era complicado, principalmente o retorno para casa, porque eu saía da Ufba às dez horas da noite”, recorda Juan.
Reparação – A primeira Casa dos Estudantes Quilombolas foi inaugurada em julho de 2018, em Brotas, para receber até 30 estudantes. A segunda unidade foi entregue em outubro de 2022, no Canela, com capacidade para 40 moradores.
De acordo com a secretária de Reparação, Isaura Genoveva, as Casas Quilombolas da Prefeitura representam uma das políticas mais inclusivas de educação do município. “Além de oferecerem moradia de qualidade, reduzem as distâncias e evitam que estudantes precisem se deslocar diariamente das ilhas para o continente. Garantem alimentação, infraestrutura e condições adequadas para que esses jovens possam se dedicar aos estudos, além de proporcionar tranquilidade às famílias, que sabem que seus filhos estão em um ambiente seguro e acolhedor”, afirma a titular da Semur.
A subcoordenadora de Combate ao Racismo da pasta, Sandra Mota, reforça que a iniciativa integra as políticas municipais de reparação e promoção da igualdade racial. “É uma política pública de reparação muito importante, para esses jovens que têm o sonho de se formarem, de ter uma profissão. Alguns querem levar o que aprendem para a ilha, atuar em suas profissões lá, enquanto outros têm o sonho de trabalhar em outros lugares”, pontua Sandra.
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